– Allan Pereira –

Não é bem assim. Agora que chegamos ao fim do maior feriado do ano, podemos até pensar que as coisas “voltarão a funcionar”. Não se iluda nobre leitor. A tradição carnavalesca está bem além do que os nossos rasos olhos podem ver. Acredite, a alegria pulsante e colorida, a promiscuidade, os excessos e conseqüentes estragos desta prática tão exacerbada na nossa cultura, continuarão nos bastidores da nossa vida, até que se oficializem novamente em mais quatro dias no próximo ano.

É assim que funciona. Enquanto muitos voltam à sua “Matrix”, com trabalho e impostos, contas a pagar e a corrida diária para a sobrevivência, outros montam seus blocos carnavalescos disfarçados de vários personagens, que às vezes até acreditamos serem reais. Mas não passam de fantasia.  Geralmente aparecem como políticos, são os mais comuns. Engravatados nos noticiários, eles fazem evoluções e pirotecnias, tornando o espetáculo ainda mais intrigante.  Também seguem nesta linha artistas de televisão, participantes de tramas enroladas que distraem nossa atenção ao final do dia, assim como os nossos astros de futebol, cada vez mais engraçados e alegres, afinal, carnaval é isso, alegria, alegria.

Mais interessante são as empresas e universidades, que trabalham em conjunto com a tal comunidade, gerando a subsistência daqueles que assistem ao espetáculo, passivos e distraídos em uma prática viciada, onde acreditam estarem sendo felizes, exatamente como nos desfiles e micaretas, onde gastam muito dinheiro e tudo o que ganham é uma bela ressaca, parecida com aquela do quinto dia útil.

O Estado é o grande bicheiro, provedor da grande festa e da orgia final, tornando essa carniça celebração inesquecível aos olhos de quem vê e muito prazerosa para quem participa. Seus impostos incríveis, sua corrupção ininterrupta e sua capacidade imensa de tornar tudo tão bonito e espetaculoso nos faz sorrir diante da nossa própria tragédia, como uma Colombina com risos desesperados diante de seu Pierrô, morto e abandonado numa maca de hospital público.

A festa ainda vai longe.