Artigo de Rafael Alcadipani* – publicado no jornal O Estado de São Paulo
Texto publicado em 20 de março de 2019 | 11h25

O Policial Civil Wesley Siqueira Benites realizava o seu trabalho quando teve a sua vida ceifada por um tiro nas costas no dia de ontem. O policial foi alvejado fatalmente após abordar criminosos. Policiais Civis rapidamente responderam a situação e no final do dia terminaram por prender o criminoso que praticou o homicídio de seu colega. Dados do Anuário de Segurança Pública dão conta que em 2017, último dado disponível, um policial foi morto por dia no Brasil. As causas para este problema são variadas: o Brasil vive um alto índice de criminalidade com a prevalência do crime organizado, muitos criminosos perderam o medo de enfrentar as forças do Estado, muitos policiais precisam trabalhar fora das forças policiais para majorar salário se colocando em uma situação em que ficam mais vulneráveis, a sociedade aceita a morte do policial com facilidade, entre outros.
Toda a morte de policial deveria levar a uma análise detalhada dos fatos para que procedimentos e processos fossem revistos para evitar que mortes assim acontecessem novamente. É preciso lembrar que hoje em São Paulo policiais estão bastante vulneráveis e a sua realidade cotidiana é incompatível com a força econômica do Estado com maior pujança econômica do país. Os policiais paulistas estão sem receber se quer a reposição inflacionaria em seus salários. Muito do armamento utilizado pelas polícias é de baixa qualidade e já houve situações em que ele dispara sozinho ou não dispara quando deveria. Há uma falta considerável dos efetivos das polícias, em especial da Polícia Civil. Um baixo efetivo policial faz com que falte pessoas para prestar apoio na hora em que o policial mais precisa ou que serviços policiais sejam realizados sem o número necessário de agentes da lei. O trabalho policial está envolto em grande burocracia fazendo que um simples concerto de uma viatura seja um périplo. Na pressa de formar policiais rapidamente, o Governo de São Paulo tem permitido que a formação do policial civil seja feita em meses quando o padrão internacional é que o policial apenas sai efetivamente às ruas quando tiver feito uma formação de um ano dentro da Academia de Polícia. Não se pode formar uma pessoa que vai andar armado e no limite colocar a sua vida para proteger a nossa com pressa. Muitos softwares necessários para a investigação criminal estão desatualizados ou se quer são adquiridos pelo Estado, sem falar na instabilidade da rede de computadores que faz com que o acesso a meios eletrônicos para realizar a investigação criminal seja deficitário. Vale destacar, ainda, que nos casos trágicos em que policiais perdem as suas vidas, a família do policial além de ter que lidar com a dor da morte do ente querido, precisa enfrentar uma grande burocracia para conseguir a devida pensão do policial.
Há ainda mais uma dimensão esquecida da morte dos policiais: o descaso da sociedade com o tema. Policiais mortos raramente geram manchetes nos jornais e a cobertura da mídia é sempre bastante tímida, algo completamente diferente de países como os EUA onde a morte de um policial gera uma expressiva comoção social. Para que não tenhamos uma morte de policial por dia em nosso Brasil precisamos rever as condições de trabalho de nossos policiais, especialmente os que estão cotidianamente nas ruas e precisamos que nossa sociedade reconheça aqueles que estão nas ruas para nos proteger.

*Rafael Alcadipani é Prof. Adjunto da Fundação Getulio Vargas – Escola de Administração de Empresas de São Paulo