Ao se mudar para a Cidade Industrial de Curitiba (CIC), Dirce de Lima Trigo, de 69 anos, se deparou com uma iniciativa interessante: notou que um grupo grande de pessoas se reunia com frequência numa pracinha do bairro para fazer, todos juntos, exercícios físicos.

Depois de um tempo observando, a dona de casa resolveu se juntar a eles. Gostou tanto da experiência que convenceu o marido, o aposentado Sebastião Trigo, de 68 anos, a acompanhá-la. “Foi muito bom, mesmo sem ninguém me convidar, fui muito bem recebida”, conta.

 

 

 

 

 

O dedicado grupo de exercícios já tem 90 pessoas cadastradas. Eles se reúnem todas as segundas e sextas-feiras, às 8h. Nesta segunda (9/7), nem o frio de 14°C desanimou 51 deles a fazer suas atividades no Jardinete Professor Jorge Visca (na Rua Willibaldo Kayser), um espaço conhecido como Campão.

As atividades fazem parte do programa Escute Seu Coração, da Secretaria Municipal da Saúde. O programa busca reduzir as mortes prematuras por doenças do coração e derrames cerebrais em Curitiba.

A promoção à saúde é um dos principais eixos do programa, com ações para o combate de fatores de risco, como sedentarismo, estresse e tabagismo e alimentação rica em calorias, gordura e sal.

Os profissionais envolvidos passaram a buscar espaços onde seus pacientes pudessem participar de atividades físicas, incluindo o alongamento – uma atividade que amplia a flexibilidade dos músculos, previne lesões, melhora o condicionamento e a respiração, ajuda a relaxar o corpo, entre outros benefícios.

 

As aulas

O responsável pelas aulas é o profissional de Educação Física Eduardo Magalhães. Ele conta que a escolha do Campão foi de certa forma natural, uma vez que muitos participantes já usavam o lugar para caminhadas.

“No programa a gente utiliza também outros espaços, como igrejas. Algumas unidades de saúde têm até espaços próprios para atividades físicas”, explica Magalhães. No caso da CIC, nos dias de chuva, as aulas acontecem no Santuário São Leopoldo Mandic, ao lado da praça.

A maioria dos participantes já passou dos 60 anos. “Como fazemos as atividades em um horário comercial, o público é maior entre aposentados ou pessoas de menos idade que estão desempregadas”, conta o professor.

As atividades incluem um aquecimento prévio e vários exercícios: agachamentos, levantamento de perna e de braços, sempre respeitando os limites de cada um.

 

Cuidando da saúde

Qualquer pessoa pode participar das aulas, e muitos participantes são encaminhados pelos postos de saúde da região, para melhorar seu condicionamento físico.

É o caso de Ilda Prastes de Sales. Viúva de 55 anos, ela frequenta a Unidade Básica de Saúde para acompanhamento permanente de seu quadro de saúde. Foi-lhe sugerido participar das aulas no Campão. Deu resultado. “Melhorei da artrose, das dores na coluna, além de ter feito muitas amizades”, afirma ela.

Já a pensionista Eliane Vieira da Silva luta contra um quadro de depressão e problemas na perna e na coluna. Segundo ela, sua situação só evoluiu depois de começar a se exercitar. “Eu me sinto muito bem fazendo os exercícios; é uma alegria estar aqui todos os dias de manhã, seja no frio ou no calor”, diz ela.

“Atividade física tem um impacto direto na qualidade de vida das pessoas”, resume o professor Eduardo. Como a maioria das pessoas que vão às aulas é idosa, a questão das dores, da disposição e até mesmo do convívio pessoal é amplamente discutido, para que cada um não exagere nas atividades.

 

Relações

Os benefícios dos exercícios também se estendem à sociabilidade do grupo, já que muitos fizeram amizades novas e passaram a se relacionar com a vizinhança. “Muitos deles moram sozinhos, então é uma chance de eles também se socializarem”, diz o professor.

“Faz bem para a cabeça”, atesta a dona de casa Joselina Oliveira, num exemplo das novas amizades feitas. “Eu sempre via as pessoas passando na frente de casa e agora que tenho um tempinho, sempre estou vindo.”

“Antes eu trabalhava de dia até a noite, então eu não tinha tempo para conhecer ninguém”, diz José Carlos dos Santos, de 67 anos. Agora, ele e a esposa, Lucinda Teresinha dos Santos, 64, frequentam as aulas e fazem caminhada todos os dias. “Melhorou muita coisa na minha condição física”, afirma ela. “Eu sentia dores no corpo, mas agora acabou tudo.” Lucinda já faz aulas há cinco anos, enquanto José começou há dois anos.

 

Crescimento

O crescimento do grupo pode ser considerado orgânico. No começo, a turma fazia um trabalho de formiguinha, divulgando o projeto entre conhecidos e também nos postos de saúde.

O sucesso das atividades ajudou na “propaganda”. Maria de Lourdes de Assis, por exemplo, conta que até conhecia a praça, mas não costumava frequentá-la. “Agora eu faço caminhada, venho para as aulas e estou muito bem de saúde”, conta a dona de casa de 57 anos.

 

Recompensa

Eduardo Magalhães diz que esse tipo de avaliação dos participantes é recompensador. “Com esses projetos de convivência, a gente dá valor também às boas ações na CIC”, diz ele, considerado um “professor nota 10” pelos alunos.

“Ele observa tudo, quem está fazendo certo, quem está fazendo errado, corrige e ainda conhece todo mundo pelo nome”, diz a costureira de 64 anos Lindamir Bongiorno. “É uma pessoa maravilhosa.”