Nas ruas, em junho, gritaram-se as palavras “educação” e “saúde”, não “reforma política”. Contudo o governo concluiu, razoavelmente, que o sistema político em vigor se tornou insuportável – e resolveu agir antes que uma nova onda de manifestações se organize sob a bandeira “Fora Dilma”.
Antes das manifestações de junho, o PT e PP e outros, dentro do anárquico e corrompido sistema atual defendiam uma “evolução” em direção a algo mais consistente – e ainda mais impermeável à vontade dos cidadãos. Defendiam o financiamento público de campanha que concluiria o processo de estatização dos partidos políticos e o voto em lista fechada, que assim tornariam os políticos virtualmente imunes ao escrutínio popular. Ao concentrar ainda mais o poder nas mãos das cúpulas partidárias, romperia os tênues vínculos ainda existentes entre os eleitores e seus representantes. No fim, surgiria uma partidocracia dominada exclusivamente segundo os interesses do partido. Aquele com melhor, com mais eficiente máquina eleitoral teria o domínio e pronto.
Este projeto, que já esbarrava na resistência de boa parte da elite política, torna-se inviável com o transbordamento das insatisfações populares. No lugar dele, o Planalto inclina-se em direção a uma versão levemente modificada do voto em listas fechadas. Os autores da proposta têm bons motivos para temer que lhes colem o rótulo de companheiros de viagem do governo.
Então vamos esperar para ver onde vai dar. Eu continuo esperando manter ao menos o direito de escolher um nome, com poucas ou muitas opções, mas um nome, para votar e nunca uma instituição ou um partido.

Copidescado do artigo “Da arte de iludir” de Demétrio Magnoli