Opinião

Baixe o volume das suas certezas

Jornalista Humberto Schvabe

Entre minhas reflexões diárias tenho avaliado a presença de momentos sutis quase imperceptíveis em que o aprender deixa de ser construtivo, expansivo e passa a agir como uma estranha armadilha.

É quando a pessoa, mais jovem em especial, entende algo e organiza aquilo dentro de si, feliz e começa a acreditar que domina o suficiente.

Nasce uma sensação silenciosa de segurança. Como se, finalmente, tivesse encontrado a janela certa para enxergar o mundo como ele realmente é.

Mas o tempo passa. E o mundo insiste em não caber nessa moldura. Também, diante de outras janelas  novas experiências, conversas, contextos e discordâncias.

Vem um desconforto inevitável: aquela janela que parecia ampla era um janela normal da vida, linda mas parcial. Uma verdade conveniente. Não falsa, mas incompleta.

Por isto digo que talvez resida aí um dos maiores riscos da vida intelectual e emocional: não o erro em si, mas a perda da consciência de que errar continua sendo possível. Sem errar, sem entender esta possibilidade é impossível evoluir.

Em cada nova vivência uma camada. Cada encontro, cada divergência, cada embate de ideias, um novo repertório. O conhecimento assume o necessário fluxo contínuo. Nunca absoluto, sempre provisório. Nunca definitivo, sempre em construção.

É nesse ponto que a convicção deixa de ser instrumento de imposição e passa a ser ferramenta de reflexão. Já não há necessidade de vencer, provar ou convencer. Há, antes, a disposição de compreender, ajustar e seguir.

Evoluir, nesse contexto, exige humildade. Não uma humildade passiva, mas ativa  aquela que reconhece limites sem abdicar da busca. A ideia que hoje sustento pode estar incompleta. Não necessariamente melhor ou pior, mas situada no ponto exato da minha trajetória. É dela que parto, todos os dias, para continuar aprendendo.

Conviver sem julgar é quase como conter um reflexo natural. Difícil, sem dúvida, mas libertador, porque, ao suspender o julgamento imediato, amplia nossa capacidade de escuta, de percepção e, sobretudo, de compreensão.

O diferente, então, deixa de ser uma ameaça. Passa a ser expansão. Não fragiliza fortalece. Não confunde  amadurece. É no contato com o que não somos que refinamos o que podemos vir a ser amanhã.

A diversidade de ideias não é um problema a ser resolvido, mas um ativo a ser cultivado. É ela que tenciona, desafia e, por isso mesmo, impulsiona o desenvolvimento individual e coletivo.

Por isso, antes de aumentar o volume das suas certezas, talvez valha um exercício simples: lembrar-se de quantas vezes você já esteve absolutamente certo… e ainda assim estava equivocado.


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