Esportes

A Cicatriz que o Futebol Brasileiro Não Consegue Curar

​O Caso Héverton

No dia 8 de dezembro de 2013, o apito final da última rodada do Campeonato Brasileiro parecia ter selado o destino das equipes.

O Fluminense, então campeão nacional do ano anterior, estava rebaixado em campo. O Flamengo havia se salvado por pouco. Mas o que aconteceu nas 48 horas seguintes transformaria o tapetão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) no palco de um dos capítulos mais nebulosos do esporte mundial.

O Erro Fatal: O que aconteceu de fato?

​Tudo começou com a entrada de Héverton, meia da Portuguesa, aos 32 minutos do segundo tempo contra o Grêmio. O jogador havia sido suspenso por dois jogos em um julgamento na sexta-feira anterior. Ao entrar em campo no domingo, a Lusa violou o Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).

​O que muitos esquecem é que o Flamengo cometeu o mesmo erro. Um dia antes, o rubro-negro escalou o lateral André Santos de forma irregular contra o Cruzeiro.

​A Matemática do Tribunal

​A punição para a escalação irregular era a perda de 4 pontos (3 pontos de punição + o ponto conquistado na partida).

Sem o erro da Portuguesa, o Flamengo teria perdido os pontos e terminado com 45, sendo ultrapassado pelo Fluminense (46).

Nesse cenário, o Flamengo seria rebaixado. A falha da Lusa "empurrou" o clube paulista para o Z4, salvando os dois gigantes do Rio de Janeiro simultaneamente.

​"Alguém avisou?": As teorias de conspiração

​Até hoje, em 2026, o torcedor lusitano faz a mesma pergunta: Como um clube profissional comete um erro tão primário?

​O Ministério Público de São Paulo investigou o caso por anos, sob a suspeita de que funcionários da Portuguesa teriam recebido propina para escalar Héverton propositalmente.

O promotor Roberto Senise chegou a afirmar na época que "havia indícios de que o clube foi usado". No entanto, a falta de provas documentais e quebras de sigilo inconclusivas impediram que qualquer dirigente fosse preso ou que o resultado do campeonato fosse anulado.

O Legado de Destruição

​Enquanto Flamengo e Fluminense seguiram caminhos de reestruturação e títulos, a Portuguesa nunca se recuperou.

O "Caso Héverton" foi o início de uma queda livre que levou o clube a desaparecer do cenário nacional por anos.

​Mesmo com as tentativas judiciais da Lusa de ser indenizada pela CBF, que se arrastaram até meados desta década, o sentimento é de que a justiça desportiva priorizou a manutenção dos "grandes" em detrimento do regulamento ético.

​"A Portuguesa não caiu apenas por um erro de direito; ela caiu porque era o elo mais fraco de uma engrenagem que não podia permitir a queda de dois gigantes no mesmo ano", afirma um historiador do clube.


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