Entendendo o Abstrato
Pedro da Costa

Chico Xavier resolveu dedicar a sua vida a serviço direto e imediato da parte mais infeliz da humanidade, para que ninguém lho pudesse retribuir, nem avaliar a grandeza do seu sacrifício, assim não havia nenhum perigo de que agisse em virtude de algum perverso e bem disfarçado egoísmo; assim não havia nenhum perigo de reconhecimento, de aplausos ou gratidão da parte de seus beneficiados. Enquanto o homem conserva um resquício de espírito interesseiro e mercenário, não realizou o cristo dentro de si; serve o ruim em si, julgando ser o Cristo. Prestar benefícios à humanidade a fim de ver e ouvir o seu nome nos jornais, nas emissoras, na televisão ou saborear os louvores do alto dos púlpitos, dos lábios dos amigos, ou fulgurar numa placa de mármore ou bronze à entrada de algum templo, figurar em algum “livro de ouro” como exímio benfeitor desta ou daquela obra filantrópica – tudo isto é egoísmo disfarçado em altruísmo, é tanto mais perverso quanto mais camuflado de virtude.
Não há nada que tão seguramente preserve de contágios mórbidos a saúde da nossa alma como esse contato direto com as misérias humanas. Quem tem de suportar diariamente as costumeiras brutalidades da sociedade, as ingratidões dos seus beneficiados, dificilmente correrá perigo de cair vítima de orgulhosa auto-complacência ou misticismo doentio. As durezas duma ética infalível contra as bactérias do misticismo sentimental.
A benção Chico Xavier