Toda vez que o samba mandou chamar, ela veio. Em 1953, Elza Conceição Soares subiu ao palco do programa de Ary Barroso, na Rádio Tupi, com seus 50 kg, roupas remendadas com alfinete e uma sandália emprestada de sua mãe. “De onde você vem?”, ele perguntou, em tom de gozação. E ela respondeu: “Do planeta fome”.

Assim que Elza começou a cantar os versos de Lama, “se eu quiser fumar, eu fumo, se eu quiser beber, eu bebo”, escritos por Aylce Chaves e Paulo Marques, Ary se encantou com o timbre e a força daquela voz rouca cheia de distorções únicas. Ao final da apresentação, abraçou Elza e bradou: “senhoras e senhores, nasce uma estrela”.
62 anos depois, a história da menina pobre que virou estrela incansável da música popular brasileira ficou marcada por dificuldades e chutes nas portas para conquistar respeito. Elza passou fome na infância, perdeu maridos, filhos, amargurou a falta de dinheiro, ficou quase dez anos sem gravar e sofreu com o julgamento da sociedade por se relacionar com Mané Garrincha (que era casado na época).
“Eu acho que a mulher do fim do mundo é aquela que busca, é aquela que grita que reivindica, que sempre fica de pé. No fim, eu sou essa mulher.
Aos 78 anos, Elza parece ter curado algumas feridas da vida, mas tem de lidar com outras, como a perda recente de um filho e as dores na coluna que a obrigam a fazer sessões de fisioterapia, cirurgias e até shows sentada sem o seu icônico salto 15.