Humberto Schvabe, reescrevendo o texto “O Futuro do PT” de Lúcia Hippólito

Sem rancor e sem o preconceito de quem não gosta do partido (até onde isto possa ser possível) apresento uma análise do PT de hoje dentro do jogo do poder de nosso querido Brasil.
O PT nasceu há 29 anos, dentro do movimento sindical, ou como um braço deste movimento. Recebeu o apoio de setores progressistas da Igreja Católica que lutavam em benefício dos menos favorecidos como as Comunidades Eclesiais de Base.
Teve o apoio de muitos intelectuais, basicamente paulistas e cariocas, felizes com a oportunidade participar de um partido que nascia sem um dono, sem ser dominado pelos poderosos de sempre. Diziam que o partido era do proletariado. Era na verdade um partido que tinha o apoio de uma outra grande força, que eram os sindicados. Mas, ressalve-se que mesmo com muito poder econômico e de mobilização, bem como articulação de bastidores, os sindicalistas não tinham ou não cavalgavam o poder político.
Gostei da afirmação de que o PT cresceu como criança mimada, manhosa, voluntariosa e birrenta. Não gostava do capitalismo, dizia-se socialista. Era revolucionário. Jurava não querer chegar ao poder, mas denunciar os erros das elites brasileiras.E assim foi até o dia em que sentiu o gosto, o sabor do poder e criou a sua música (para não dizer que dançou na mesmo música dos de sempre). E ai a história de não fazer acordos, não participar de coalizões e alianças foi trocada pela barganha, pelas oportunidades de chegar ao poder. E assim se misturou com os de sempre, assumindo o poder e seus vícios.
Foi assim que teve que se livrar de antigos companheiros, amizades problemáticas, gente de princípios que não abria mão dos ideais, de convicções, amigos de fé e tantos irmãos camaradas. Tinha de se manter no poder.
Pessoas honestas e de princípios se afastaram do PT, outros aceitaram a nova realidade para “na tentativa de fazer alguma coisa mudar”.
Foi assim que o partido ficou sem Heloisa Helena, Luciana Genro, Chico Alencar, Marina Silva e outros. Pessoas que até então eram inimigos da direita e que agora são citados por aqueles da direita mais conservadora que “ainda” não se aliou ao governo atual. São admirados e citados como exemplo (pelo simples fato de deixarem o PT), assim como os da Igreja Católica (como o querido Frei Betto).
Quanto ao Flávio Arns, de “fortíssimas ligações familiares com a Igreja Católica”, também citado pela articulista, bem sabemos que deixou o partido por falta de espaço político e foi para o PSDB como Vice do Governador Beto Richa.
Quem ficou no PT? Ficaram todos que “aceitam” partilhar do poder, que é a grande maioria.
Quanto ao lembrete de que o PT está cada vez mais parecido com o velho PTB de antes de 64, fica fácil entender. Até lá o PTB era sinônimo de poder.
E este PT no poder “trabalha“ da mesma maneira e ao lado dos do poder de antes. Se tiver uma diferença é o fato de que os do PT (em sua maioria) não nasceram em meio ao poder, eles lutaram para isto, fizeram seus acordos, galgaram o poder e agora não querem mais largar “a mamata”. Por isto estão “aboletados” nos ministérios, nas diretorias, nos conselhos das estatais, etc, recebendo polpudos salários, mantendo relações delicadas, cavando benefícios para os seus. Aliando-se ao coronelismo mais arcaico, o PT do poder segue o exemplo dos de sempre e não vai desaparecer tão fácil porque está também criando suas raízes no poder federal, dos estados e municípios.
Não concordo que seja o triunfo da pelegada. Mas poderia concordar que hoje atuam como pelegos.
Os do poder antigo ainda encerram o texto saudosista lembrando: Diamantina, Interior de Minas Gerais, 1914 – O jovem ‘Juscelino Kubitschek’, de 12 anos, ganha seu primeiro par de sapatos. Passou fome. Jurou estudar e ser alguém. Com inúmeras dificuldades, concluiu o curso de Medicina e se especializou em Paris (quem lhe garantiu esta formação não foram os do poder de sempre?). Como Presidente, modernizou o Brasil. Realmente nos deixou um rol impressionante de obras. Obstinado, sim, mas humilde nunca, deixou o país endividado com a corrupta construção de Brasília, de onde nasceram muitos milionários.
Lula assume a presidência. Arrogante, se vangloria de não haver estudado (mau exemplo. Mas o ‘diploma da vida’, foi importante sim. Entre tantos maus exemplos como os citados no texto temos de lembrar o que plantou. Seus críticos se apegam ao fato de não ter estudo, mas defendem com unhas e dentes empresários corruptos que “sem oportunidade para estudar” enriqueceram e apresentam como exemplos.
Depois de citar “exemplos” dos poderosos de sempre, ainda que dar lição de moral citando: Martin Luther King: O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.’
Eu complemento com a pergunta: quem são os bons? Os que tinham o poder até ontem (os corruptos de ontem, ou (os que estão no poder agora) os corruptos de hoje.