Jornalista Humberto Schvabe

A cada dia que passa fica mais claro que a população não confia mais neste modelo político que, mesmo sustentando uma democracia, também sustenta um sistema corrupto. É uma instituição fragilizada, sim, mas real, pois continua nos garantindo a liberdade de opinião e a possibilidade de expressá-la livremente como prega a declaração universal dos direitos humanos.

Muitas são as sugestões para nos livrar desta dita realidade através de outros caminhos.

Pesquisando sobre o tema encontrei um caminho usado lá na Grécia antiga onde existiam três formas para ingressar no poder: por eleição, por indicação ou (pasmem!) por sorteio. Isso mesmo, um democrático sorteio. E tem um bom grupo de pessoas estudando isto.

Encontrei também informações sobre Aristoteles considerando o uso do sorteio, como ação democrática e a eleição como oligárquica. Pode parecer estranho, soar como uma brincadeira…

Pois, preste atenção: nós estamos acostumados a ligar voto a democracia. Certo? Por outro lado, esta história de sorteio praticamente ninguém conhece e só aconteceu na antiguidade.

O grande segredo desse tipo de escolha é que qualquer cidadão pode exercer um cargo no poder.

Mas eis que o sorteio está de volta. A partir da segunda metade do século XX, alguns intelectuais, estudiosos criaram mecanismos que conduziam o método aleatório. A busca de colocar o cidadão comum dentro dos espaços de decisão sem os vícios dos políticos tradicionais seria a esperança de levar ao centro de poder pessoas não contaminadas pelas redes de interesse.

E, um detalhe importante deste “sistema” é: apenas um ano no poder e no máximo por duas vezes, sem repetição.

Algo próximo à ideia do sorteio foi o que aconteceu na crise islandesa de 2008. Ali, assembleias cidadãs, de pessoas sorteadas foram convocadas para discutir alguns princípios. Princípios básicos visando servir como subsídios básicos para uso do Conselho constituinte para depois ser referendado pela população.

Também no Canadá em 2004 uma província teve uma experiência muito elogiada, revelando o potencial do uso do sorteio, em especial para evitar que os parlamentares legislem em causa própria. Sem contar que poderíamos conseguir reciclar o poder nos livrando das velas raposas que hoje loteiam os cargos mais importantes ao mesmo tempo em que dominam o noticiário.

Que tal começar a pensar neste novo tipo de representação? Um novo experimento democrático; uma alternativa de representatividade oxigenada com o sonho de mudar para melhor.